PORTAL COMUNHÃO - 81,9% associam problemas financeiros à saúde mental. Agosto 2026

Especialistas alertam que problemas financeiros podem alimentar ciclos de preocupação, estresse e sofrimento emocional

Por Cristiano Stefenoni / Fonte: Portal Comunhão

Dinheiro não compra felicidade, mas a falta dele pode acrescentar uma dose pesada de preocupação à rotina. Contas vencendo, dívidas acumuladas, renda insuficiente e medo de não conseguir manter as necessidades básicas estão entre as situações que podem gerar sofrimento e afetar a saúde emocional. Uma nova pesquisa mostra o tamanho dessa relação entre dificuldades financeiras e adoecimento mental no Brasil.

Realizado pela Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira (Abefin), em parceria com o Instituto Axxus, o levantamento ouviu 1.000 brasileiros de todas as regiões do país com diagnóstico formal de ansiedade, depressão, estresse crônico ou síndrome de burnout.

As entrevistas presenciais em profundidade foram conduzidas por psicólogos especializados, com o objetivo de compreender quais fatores os próprios participantes relacionavam ao surgimento ou agravamento de seus transtornos. Entre os entrevistados, 81,9% afirmaram que problemas financeiros tiveram participação relevante, em algum grau, no desenvolvimento ou agravamento do quadro psicológico.

O resultado chama atenção principalmente pela intensidade dessa percepção. Para 27,1%, as dificuldades financeiras foram apontadas como causa exclusiva do adoecimento. Outros 32,4% afirmaram que os problemas relacionados ao dinheiro foram a causa predominante entre diferentes fatores. Já 22,4% disseram que as finanças estavam entre as principais causas de seus problemas emocionais. Somados, os três grupos representam 81,9% dos participantes.

O dinheiro aparece como principal gatilho

A pesquisa também perguntou aos participantes qual havia sido o principal gatilho relacionado ao surgimento do transtorno. As dificuldades financeiras apareceram em primeiro lugar, mencionadas por 34,6% dos entrevistados.

O percentual ficou acima de outros fatores apontados pelos participantes: problemas relacionados ao trabalho, com 20,5%; relacionamentos, 11%; separação, 10,9%; doenças, 8,3%; e luto, 5%.

Os dados ajudam a dimensionar como a vida financeira pode atravessar outras áreas da existência. Uma dívida, por exemplo, não permanece necessariamente restrita ao orçamento. A preocupação com o pagamento pode interferir no sono, nos relacionamentos, na produtividade profissional e na percepção que a pessoa tem sobre o próprio futuro.

Contas básicas também entram na equação

Outro dado preocupante aparece quando a pesquisa olha para as condições financeiras dos participantes. Segundo os resultados divulgados, 69,4% tinham dificuldades para pagar contas básicas, enquanto 61,2% conviviam com dívidas.

Além disso, 53,6% afirmaram que a renda não era suficiente para atender às necessidades do dia a dia. O desemprego também apareceu como um dos principais desafios financeiros para 31,1% dos entrevistados.

Nesse cenário, o problema não é necessariamente o desejo de consumir mais ou a dificuldade de organizar pequenas despesas. Para uma parcela significativa das pessoas, trata-se de uma equação mais básica: como garantir moradia, alimentação, transporte, saúde e outras necessidades quando o dinheiro disponível não cobre todas as despesas?

Quando a preocupação financeira vira sofrimento

A relação entre dinheiro e saúde mental pode acontecer de diferentes maneiras. A insegurança financeira pode provocar preocupação constante e sensação de falta de controle. Em outros casos, dívidas acumuladas podem gerar medo de cobranças, vergonha, conflitos familiares e dificuldade para fazer planos.

O problema também pode funcionar em sentido contrário. Uma pessoa que já enfrenta ansiedade, depressão ou burnout pode apresentar maior dificuldade para trabalhar, manter produtividade, organizar as contas e tomar decisões financeiras, criando um ciclo difícil de interromper.

Por isso, os números da pesquisa precisam ser interpretados com cautela. O levantamento mostra uma associação percebida pelos próprios participantes entre dificuldades financeiras e seus problemas psicológicos. Isso não significa que a pesquisa tenha demonstrado que problemas financeiros sejam, isoladamente, a causa clínica dos transtornos.

Na prática, o sofrimento emocional costuma ser resultado da combinação de diferentes fatores, que podem envolver trabalho, relações pessoais, condições sociais, saúde física, histórico individual e situação econômica.

Educação financeira também pode fazer parte da prevenção

O levantamento aponta ainda uma lacuna: 48,5% dos participantes nunca haviam buscado orientação profissional em educação financeira.

Aprender a organizar o orçamento não resolve problemas estruturais, como desemprego, renda insuficiente ou endividamento elevado. Porém, pode ajudar algumas pessoas a compreender melhor a própria situação financeira, estabelecer prioridades, negociar dívidas e reduzir a sensação de descontrole.

O primeiro passo pode ser tirar as contas da cabeça e colocá-las no papel. Saber exatamente quanto entra, quanto sai, quais são as dívidas e quais despesas são essenciais permite transformar uma preocupação difusa em um problema mais concreto.

Também é importante evitar que a dificuldade financeira seja tratada como fracasso moral. Dívidas e falta de dinheiro podem estar relacionadas a desemprego, emergências médicas, redução de renda, separações, crises econômicas e diversos outros acontecimentos que fogem do controle individual.

Cuidar da mente e do bolso

A pesquisa reforça uma questão que muitas vezes passa despercebida: saúde financeira e saúde emocional podem caminhar lado a lado.

Quando a preocupação com dinheiro começa a provocar sofrimento intenso, insônia persistente, crises de ansiedade, isolamento, perda de produtividade ou dificuldade para realizar atividades cotidianas, é importante buscar ajuda profissional. Da mesma forma, organizar as finanças pode ser uma etapa complementar para recuperar a sensação de segurança e planejamento.

Mais do que aprender a gastar menos, cuidar da vida financeira envolve construir uma relação mais consciente com o dinheiro. E, quando o problema já alcançou a saúde mental, a solução não deve ser procurar apenas uma planilha. O orçamento pode precisar de organização, mas a pessoa também pode precisar de acolhimento, escuta e tratamento adequado.

O que a Bíblia ensina sobre dinheiro e preocupação

A relação com o dinheiro também ocupa espaço significativo nas Escrituras. Embora a Bíblia não trate de endividamento e saúde mental nos mesmos termos utilizados atualmente, diversos textos apresentam princípios sobre preocupação, contentamento, planejamento e responsabilidade financeira.

Um dos ensinamentos mais conhecidos está em Mateus 6:25-34, quando Jesus orienta seus seguidores a não viverem dominados pela ansiedade em relação às necessidades da vida. Ao falar sobre alimento, bebida e vestimenta, Ele convida a confiar em Deus e a não permitir que a preocupação com o amanhã controle o presente.

Isso, porém, não significa ignorar os problemas concretos. A própria Bíblia apresenta a importância do planejamento. Em Provérbios 21:5, o texto afirma que os planos do diligente conduzem à abundância, enquanto a pressa pode levar à pobreza. A orientação aponta para a necessidade de organização, prudência e responsabilidade na administração dos recursos.

Outro princípio aparece em Provérbios 22:7: “O rico domina sobre o pobre, e o que toma emprestado é servo do que empresta”. O texto reconhece a dimensão de dependência que pode acompanhar o endividamento e serve como alerta para o cuidado com compromissos financeiros que ultrapassem a capacidade de pagamento.

A Bíblia também chama atenção para o perigo de transformar o dinheiro em centro da existência. 1 Timóteo 6:9-10 alerta para os riscos associados ao desejo desordenado de riqueza. O problema, nesse caso, não está simplesmente em possuir recursos, mas em permitir que a busca pelo dinheiro determine valores, escolhas e prioridades.

Em Filipenses 4:11-13, o apóstolo Paulo fala sobre aprender a viver tanto em situações de fartura quanto de necessidade. O princípio do contentamento apresentado no texto não deve ser confundido com conformismo diante da pobreza ou das injustiças. Trata-se de reconhecer que o valor e a esperança de uma pessoa não precisam depender exclusivamente de sua condição financeira.

Para quem enfrenta dificuldades econômicas, esses ensinamentos podem funcionar como uma perspectiva espiritual: planejar sem transformar o dinheiro em senhor da vida, buscar ajuda quando necessário, evitar compromissos financeiros irresponsáveis e desenvolver confiança em Deus sem abandonar a responsabilidade pessoal.

É importante lembrar, entretanto, que fé e organização financeira não substituem cuidados de saúde. Quando dificuldades econômicas estão associadas a ansiedade, depressão, burnout ou outros transtornos, buscar acompanhamento de profissionais de saúde mental é uma atitude de responsabilidade, não de falta de fé. A espiritualidade pode fazer parte da rede de apoio, mas sofrimento psicológico também merece atenção clínica adequada.

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