Crédito consignado privado: maioria não sabe quanto paga de juros, revela estudo
Entre os que tomaram empréstimos pelo "Crédito do Trabalhador", 69% afirma não saber o impacto das prestações nas finanças pessoais e 89% não soube responder quanto paga de juros
Por Leonardo Godim. Fonte: Valor Investe
Um estudo revelou que 69% das pessoas que contrataram crédito consignado privado, o “Crédito do Trabalhador”, afirmam não saber qual é o impacto das prestações nas suas finanças. Quando questionados quanto de juros estão pagando por mês, 83% não sabia responder e 9% não tinha certeza.
A pesquisa da Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira (Abefin), elaborada em parceria com o Instituto Axxus de Pesquisas (ligado à Unicamp), entrevistou, em junho, 400 pessoas que tomaram empréstimo nessa modalidade. A margem de erro do estudo é de 4% e o nível de confiança, de 95%.
Os dados evidenciam uma realidade preocupante da nova modalidade de crédito criada pelo governo federal em março deste ano.
Quando questionados sobre o motivo do empréstimo, 36% responderam que contraíram a nova dívida como substituto para linhas com juros mais altos. Nos demais casos, o dinheiro foi usado para gastos emergenciais, como saúde (29%) e reformas ou manutenção da casa (26%).
Uma parcela expressiva dos respondentes disse que usou o crédito - que compromete parte do salário e pode consumir 10% do FGTS ou até 100% da multa rescisória, se for demitido - para adquirir eletrodomésticos (19%) ou veículos (19%). Outros 6% responderam que usaram para outros motivos, como ajudar a família. Alguns entrevistados apontaram mais de um motivo
"Estamos assistindo à naturalização da renúncia ao futuro em nome da urgência. É como cortar a rede de segurança para apagar um incêndio momentâneo", alerta Reinaldo Domingos, presidente da ABEFIN. "Pessoas que comprometem parte do salário sem sequer entender o custo real disso. É uma decisão que não é racional nem técnica - é puramente emocional ou por desespero".
A falta de instrução pode transformar o que seria uma solução financeira em armadilha. Entre os entrevistados, 54% diz não ter recebido nenhuma orientação sobre a linha especial de crédito antes de contratá-la. Outros 24% buscaram informações na internet, seguidos por 9% que tiveram ajuda da família para se informar e 9% que o fizeram pela imprensa. Apenas 5% obtiveram orientações no site da própria instituição financeira que liberou o dinheiro.
“É inaceitável que um produto financeiro com esse impacto seja oferecido sem orientação adequada. A responsabilidade não pode ser jogada apenas nas costas do trabalhador”, critica Domingos. Para ele, o crédito consignado pode ajudar, quando bem compreendido e planejado. Mas o que tem ocorrido, ao contrário, é o uso impulsivo, “receita para o endividamento estrutural”.
O presidente da associação chama atenção para a naturalização da renúncia ao futuro em nome da urgência. A entidade recomenda medidas urgentes para mitigar consequências negativas da lei, que permitiu o comprometimento da renda mensal dos trabalhadores celetistas em dívidas.
Elas incluem mecanismos de educação financeira obrigatórias antes da contratação da dívida. Além disso, de acordo com a entidade, é necessário mais transparência nas simulações, incluindo custo efetivo total da dívida e o impacto no salário. Ela recomenda ainda a criação de uma plataforma pública de comparação de taxas de condições, assim como maior fiscalização das instituições financeiras.
“Não podemos continuar permitindo que trabalhadores entrem em contratos sem entender o que estão assinando. A inclusão financeira não é só dar acesso ao crédito - é garantir que ele seja usado de forma consciente e sustentável”, conclui Reinaldo Domingo.